Bailam-me por entre as mãos as tuas palavras.
Três pequenas folhas amarelas, que rasgaste de uma agenda, onde eu não estava programada.
Pego nelas, como quem pega em pétalas de uma flor, e lembro o timbre de quando as declamaste, a sorrir, com os olhos que pões quando olhas para mim.
Pouco lembro da construção do texto. Recordo a rima perfeita, a musicalidade das frases conjugadas com ternura.
Do poema, ficou-me na memória, a vibração. A emoção cristalina da palavra Amor, que vinda dos teus lábios, tem uma mímica que eu não conhecia.
Por entre as mãos, tento decifrar as palavras que desenhaste com jeito.
O meu pai tinha essa caligrafia, quando escrevia para a minha mãe.
Sigo com a ponta do olhar, os movimentos circulares da escrita, as pausas, os espaços, os pontos, as virgulas.
Leio claramente o que escreveste nas entrelinhas.
Quero escrever-te. Dizer-te algo que nunca ninguém tivesse dito.
Expressar por palavras, o que se passa no meu sangue, enquanto seguro a tua poesia de veludo.
Vasculho as palavras:
Flores e Estrelas. Montanhas e Prados. Mar e Céu. Sol e Terra. Árvores e Pássaros de Fogo. Nascente e Crepúsculo. Vento e Lua.
Conjugo-as. Ando dentro das palavras, a ver se lhes descubro um avesso luminoso. Quero dizer-te, mas tu és tanto. Tu, és mais do que tudo o que eu possa.
Arrisco então, uma frase, ainda que me permaneças intraduzível.
Em que me és estrela a florir numa montanha, prado azul celeste, mar de terra a cheirar a Sol, nascente lunar de pássaros vermelhos que o vento agita na copa crepuscular das árvores.
Ponho as tuas palavras nas palmas das mãos e elas voam.
São borboletas com asas de açucenas, tatuadas com o teu poema.
Ao meu colo, as três folhas amarelas tem saudades das tuas mãos.
A minha boca repete o silêncio mímico dos teus lábios em oração.
Os Deuses param o tempo, enquanto desfolham as borboletas.
Com o teu poema, dourado, nas pontas dos seus dedos, os deuses são mais luz.
Ordenam aos ponteiros do tempo, que recomecem a sua caminhada circular, ao compasso do teu poema com aroma de açucenas.





